ANA MARIA MARQUES
Nasceu em Belo Horizonte, em novembro de 1977. Formada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerias, é mestre em Literatura Brasileira e doutoranda em Literatura Comparada peã mesma universidade. Em 2007, ganhou o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, na categoria “Poesia — autor estreante”, e, em 2008, recebeu novamente o mesmo prêio, na categoria “Poesia”.
De
Ana Martins Marques
A VIDA SUBMARINA
Belo Horizonte: Scriptum, 2009.
ISBN 978-85-89044-25-7
“Os poemas, sensitivos e intelectuais, quase sempre muito breves e sugerindo a forma do diário, apresentam, nos seus melhores momentos, esse equilíbrio difícil entre proximidade e distância. (...) Há ainda, avulsos, belos versos e imagens, neste livro de estreia em que já se reconhece uma voz muito pessoal.” Murilo Marcondes de Moura
“Uma revelação convincente. Ele entende a poesia como a criação de uma realidade autônoma, no espaço das palavras, superando a noção da metalinguagem. Ela veio para ficar no cenário da poesia brasileira.” Antonio Miranda
Espelho
Dentro do armário
do seu quarto de dormir
deve haver um espelho.
Se você sai
e deixa o armário aberto
durante todo o dia
o espelho reflete
um pedaço da sua cama
desfeita.
Se você sai
e deixa a porta fechada
durante todo o dia
o espelho reflete o escuro
do seu armário de roupas,
a luz contida dos vidros
de perfume.
Do outro lado do poema
não há nada.
Vaso
Moldar em torno do nada
uma forma
aberta e fechada.
Palavra por palavra
o poema circunscreve seu vazio.
Leque
Contra o fundo da noite
desenha-se
a sua nudez
como um lápis
pele de
penumbra
poças de
rosas quentes
luz diagonal
nos lençóis
de há pouco
e por fim
você se abre
como um leque.
Memória (I)
As unhas não guardam
marcas dos amores que,
delicadas, destroçaram.
Os olhos não retêm
a memória das imagens
indecifradas.
Com a lembrança pousada
na praia antiga de um beijo,
procuro
desatenta
traçar o mapa do desejo,
sua secreta geografia.
Papel de arroz
Mira:
as coisas construídas oscilam
numa frágil arquitetura
(os papéis cultivados
em campos
guardarão sempre a memória seca
dos dias alagados).
Também as palavras revelam somente o que escondem:
eis a solução de uma questão
delicada.
Página publicada em março de 2010
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