MANUEL SOBRINHO
(1897-1957)
Manuel Alexandre de Santana Sobrinho, poeta, funcionário público, membro da Academia Maranhense de Letras.
SÃO FRANCISCO
Ó triste e pobretã cidade maranhense!
Por que a eterna canção romântica das águas
Do velho Parnaíba onduloso não vence
Teu descontentamento e tuas fundas mágoas?
Por que já não te enfeita a pompa que outrora
Ostentavas riqueza, orgulho e poderio?
Não vês que ao pé de ti o arvoredo se enfiara
Ao beijo das manhãs translúcidas do estio?
Por que sofres assim? Por que definhas tanto?
Por que te pesa a cruz de tal adversidade?
Olha: a árvore remoça em teu subúrbio, e o canto
Das aves do teu céu traduz felicidade...
Por que tua cerviz dobras e não encaras
O céu, que nos dá força, em nosso desalento?
Vês? O Morro da Cruz e o Morro das Araras
Erguem a fronte larga à luz do firmamento...
Por que, perdendo a forma estética, te afeias,
Contrastando com tudo aí desse recanto,
Quando eu - que sou teu filho - eu sei que te rodeias
De infindáveis painéis do mais soberbo encanto?
Por que fazes, agora, humilde, curvaturas
A tudo o que enfrentaste, outrora, com denodo?
É que, nas asas do ouro, ontem galgaste alturas,
E hoje, rastejas, pobre e anônima, no lodo.
MEU SABIÁ
Subindo os alcantis, galgando o azul, varria
O áureo clarão da aurora as sombras no Nascente.
Sustenidos, bemóis, pelo festivo ambiente
Vibrava o passaredo, hinos entoando ao dia.
Vencendo pouco a pouco a tristeza e a apatia
Em que a envolvera atreva, inexoravelmente,
A natureza enfim livre e resplandecente,
Com régia majestade e intrepidez se erguia.
Tudo acordava e ria um rio amável, tudo!
Só na estreita gaiola, impassível e mudo,
Dir-se-ia meu sabiá num pensamento absorto...
É que - maldade humana! - o pobre passarinho,
De saudades, talvez, do profanado ninho,
Perdera a voz, que eu tanto ouvira... - Estava morto!
TROVAS
Amigos, quantos tiveres,
Um por um te deixarão,
Quando já não dispuseres
De dinheiro ou posição...
Se alguém se julga perfeito,
A razão disso adivinho:
Em si não busca o defeito
Que descobre no vizinho.
Do bem por ti desejado
Não corras muito na pista:
Na vida, o mais apressado
Nem sempre é o que mais conquista...
És pobre? Sofres? Paciência,
Põe no lábio um riso franco:
Na roleta da existência
Há muito número em branco...
É pela dor procedida
Do tombo que se levou,
Que pode ser bem medida
A altura a que se chegou.
(Hora Iluminada, 1948)
Página preparada por ZENILTON DE JESUS GAYOSO MIRANDA,
publicada em junho de 2008.
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