AMOR PRIMERO
José Antonio Pérez-Montoro
Hicimos el amor por vez primera
y el amor se hizo luz e inundó todo,
anegando hasta el último recodo,
y la sensación fue tan verdadera
de que el amor creado una carne era,
amor tan vivo fue en aquel periodo,
que yo no supe hallar oculto modo
de trazar linde, la sutil trinchera
entre amada y amor o amor y amada.
Toqué un seno, cual perfecta esfera;
total amor palpé en mano estigmada.
Por eso, en otras veces cualesquiera,
pide aquella experiencia recordada:
-Hagamos el amor por vez primera.
AMOR PRIMEIRO
Tradução de Anderson Braga Horta
Amor fizemos pela vez primeira,
e fez-se luz o amor, tudo abraçando
e até o mais recôndito inundando;
tocou-me então idéia tão certeira
de o recém-nado amor ser verdadeira
carne, e tão viva, e em estos palpitando,
que acabei o segredo não achando
de traçar lindes, ou sutil trincheira,
entre a amada e o amor, o amor e a amada.
Tomei de um seio a doce esfera inteira;
inteiro o amor palpei com a mão chagada.
Por isso, toda vez que amar eu queira,
pede agora a experiência recordada
que façamos o amor por vez primeira.
ENTRE PURO E OBSCENO
Poema de Antonio Miranda para José Antonio Pérez-Montoro
Depois de teus sonetos ler e salivar
a revolver em busca de lascívia e mel
os vinte e cinco poemas, de um só tropel
e, acinte, é que fico aqui eu a cismar.
Se pode haver pornografia em amar
mesmo que o amor seja reverso e cruel
ainda que a soldo no mais reles bordel
ou mesmo na inversão de corpos a arfar.
Não seria no ato que se pratica
nem poderia estar naquele que fornica
ainda que na condição mais canalha
mesmo que nem seja amor, seja mortalha
imunda, perfídia, que só valha
o ditado: amor que fica é o de pica.
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