ANA MARIA LOPES
Primeira colocada, em 1967, em concurso literário patrocinado pela Embaixada de Portugal, jornal O Globo e Livraria El Ateneo, Ana Maria Lopes arrebatou o 1º lugar também no concurso de poesia promovido pela Editora Abril, em 1981. Recebeu ainda, da Baume Mercier e Bloch Editores, o 1o prêmio em concurso de contos realizado em 1995. Tem poemas publicados na antologia Poetas Brasileiros Hoje (Shogun Editora de Arte, RJ, 1995). Lançou em 2006 o livro Conversa com Verso (LGE Editora/DF).
Jornalista graduada na Universidade de Brasília, exerceu a profissão nas TVs Nacional e Alvorada e n’O Globo, sucursal DF. Chefiou a reportagem da TV Câmara e dirigiu o Núcleo de Vídeos Especiais. Carioca de nascimento, ela se diz no entanto “a mais brasiliense do planeta. O Rio de Janeiro está no meu coração mas Brasília é dona da minha alma. Aqui cresci, estudei, plantei árvores, criei filhos e cultivei as minhas conversas com o verso”.
Sobre sua poesia diz Cláudio Maya Monteiro
“Foi deliciosamente impactante lê-la, contemplar estas aquarelas sendo despintadas cor a cor, revelando à maneira de pentimento as várias superposições de camadas que a formaram no tempo e no espaço do sentimento e da vivência, com peso e leveza, que se entrelaçam, formando ao longo dos textos uma trama fina e envolvente. Tal como o ofício laboriosos das aranhas que tecem sombras nos desvãos, debaixo dos guarda-roupas e também à luz do sol, e que brilha em ambas as situações.”
De Conversa com Verso
(LGE Editora, 2006)
SIDERADA
Cometo atos
que mesmo astros
como o cometa
jamais cometeriam.
LUA E CORPO
Uma lua incerta batia
quando em quando
seu claro no meu corpo
Queria me despir de sua luz
procurando o breu.
Mas com grande mestria
a lua investia
seus dedos luminados
procurando meus pelos
explorando minhas cavernas
e sem nenhum barulho
dava seu mergulho
em águas mucosas.
Seus punhais, seus raios
jorravam o clarão
e pouco a pouco
a lua incerta e meu corpo nu
se amalgamaram
- assim como fazem os astros -
e reinventamos a luz.
NÃO ME ACORDE
Se eu estiver sonhando
não me acorde
porque basta uma noite
para me manter rediviva
uma noite para gerar meu espanto
e espantar minha rotina.
Mas se por acaso estiver tecendo
as tramas do matutar
ou colchoeira
enchendo de paina a retina
não me chame
porque basta um gemido
para me acordar.
DESPERTAR
O que vem depois do sonho
se o sono permanece
e ainda não se acordou?
O sono ganha o limbo
de sua alma
e gesta a aflição
do despertar.
Desperto, o sono se acaba
e o sonho
- oxigênio da vida -
desmancha imediatamente,
desesperadamente,
na falta de ar.
SONHOS
Não sei quantas vezes em minha vida
eu sonhei.
Falo dos sonhos em alerta
os sonhos sonhados despertos.
O sonho é amigo e cúmplice da fantasia.
Às vezes, sonho e fantasia se misturam tanto
que geram espanto
quando os tentamos separar.
E a farra da mistura é tamanha
que quando vamos
um do outro decifrar,
não sabemos se o sonho se vestiu de fantasia
ou se a fantasia escapou para sonhar.
QUINTAL
Ao tropeçar nos filodendros
meus pés se confundiram
pareciam criar raízes
e misturei pé com terra úmida.
Me senti planta daquele quintal
integrada
natureza estonteante
comungando com o sol
a minha fertilidade.
Tranquila, mas inquietando o íntimo
a poesia que chega brusca
sem buscas, sem transes,
encontrada na preguiça
no espaço doce
do tempo morno e moreno.
A PALAVRA
Ninguém percebeu
a palavra pendurada por um fio
Ninguém atinou para seu sentido
nem notou que pairava muda
sob todas as cabeças.
Carregava seus mistérios
cheio de sílabas.
Ninguém a queria nem (a) prendia
E a palavra ficou balançando
em postura de enforcado
sem traço esclarecedor
para perplexidade de todos.
POESIA
Poesia do de repente
do também e do aqui
do talvez e do agora
como um sopro
em que o vidreiro força
e poeta o vidro
Como uma manobra
que o luthier na viola
poeta sua obra
Ela chega mansa e vem,
se aninha,
como arte desconjuntada
depois agride nervosa
se enrosca nos pelos
se desmancha em apelos
como vida remendada.
Poesia que escapa
nas dobras dos dedos
e dos papéis
e vem, hospedeira da loucura
voando solitária
devassa e pura.
TUA AMANTE, POETA
(a Carlos Drummond de Andrade)
Aquela tua amante secreta
surpreendeu o mundo, poeta
e embonitou muito mais a tua vida
revivida.
Aquela tua amante secreta, poeta
cantada em trombetas discretas
fez de todo cantor um cúmplice
um torcedor contra a mesmice.
Fez a todos ver o infinito
muitos horizontes, mil portas
abrindo em fontes.
Poeta ternura
explodindo seus orgasmos, creia,
o amor compensa.
CERTEZA
Desistir de você
é tarefa que me imponho
mas penso isso
apenas em sonho pois
falta a coragem
faltam os horizontes
falta a vertigem
os verticais.
Sou uma mulher sem certezas
PASSADO PRESENTE
Organizava conversas antigas
enquanto a vida vazava
por entre meus dedos.
Um frio forte que exigia lã
teimava em surgir nas frestas
e meus fantasmas chegavam
convidados para um baile
de distante memória.
Tanto Cuba e Ray Connif
embriagaram minhas lembranças
valsa turva visão vazia vida vaza
No quarto ao lado
o presente ronca seus sonhos
à espera de meu corpo antiguinho.
.COM
Eu estou aqui
você está aí
Se acaso eu vou para aí
Você vem para cá
Há entre nós, inconteste,
um computador
– barricada –
que nos serve de atalho
para a fuga do contato
é o desamor.com
NAUFRÁGIO
Pensei em desenhar um fado
e traçar no papel
a saudade infinita de tudo
quanto se fez.
Ó mares nostálgicos de português!
Conheça o blog da poeta:
http://blog.clickgratis.com.br/anamarialopes/
Página feita por ANGÉLICA TORRES em maio de 2009
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