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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 

 

A NATUREZA COMO SUJEITO NOS ECOPOEMAS

 

DE ANTONIO MIRANDA

 

 

Apresentado pelo Prof. Dr. Valter Gomes Dias Junior,

 

no III Congresso Internacional de Literatura e Ecocrítica e I Conferência Bienal Asle Brasil, realizado na Universidade Federal da Paraíba, nos dias 29, 30 e 31 de agosto de 2016. ISBN: 978-85-66224-12-2

 

Linha Temática: Poesia e Narrativas Ecocêntricas DIAS JUNIOR, Valter Gomes2 (UFPB)

 

 

RESUMO: A Literatura engajada investe numa arte que visa a debater conceitos e, mormente, a erigir posicionamentos com olhares heterogêneos. Essa postura condiciona-se a observar o todo que a circunvizinha considerando e respeitando o ser visto como diferente ou destituído de subjetividade. Dentre as abordagens empregadas no empenho dessa construção de valor para com o outro, a Ecocrítica, a qual se trata de uma nova abordagem engajada, defende que a natureza é um sujeito; isto é, um ser sob o qual não devemos estudar através de um processo prosopopeico, porém, ecocriticamente, como o ser inserido num espaço que exige o devido respeito. Para exemplificarmos a presente proposta, valemo-nos da produção literária de Antonio Miranda (1940 - ), poeta de diversificado estilo poético, que também trabalha com ecopoemas destinados a depreender a natureza enquanto sujeito. Por isso, selecionamos da obra De Ornatu Mundi (2010) os seguintes ecopoemas: Amazônia, Pantanal – Mar de Xaraés e Flora do Cerrado para corroborar o olhar que a ecopoesia transmite. Com essa discussão, este artigo pretende contribuir com os estudos sobre Ecocrítica através da poesia ecocêntrica no âmbito da Literatura Brasileira.

 

Palavras-chave: Literatura engajada, Ecocrítica, ecopoemas, Antonio Miranda, sujeito, subjetividade.

 

 

ABSTRACT:  NATURE AS SUBJECT IN THE ECOPOEMS BY ANTONIO MIRANDA Thematic Line: Poetry and Ecocentric Narratives DIAS JUNIOR, Valter Gomes (UFPB) ABSTRACT: The engaged literature invest in debating concepts and, above all, in raising positionings from heterogeneous perspectives. This posture is prone to observing all the surrounding and to considering and respecting the being neither as different nor as destitute of subjectivity. Among the approaches applied to the development of the construction of value to one another, Ecocriticism, which is a new engaged approach, defends that nature is a subject; that is, a being which we must not study through a prosopopoeia process; but, ecocritically, as a being situated in a space that demands due respect. To give an example of the present proposal, we resort to Antonio Miranda’s literary production (1940- ), who is a poet with a diversified poetic style and who also writes ecopoems in which nature is regarded as subject. Thus we selected the following poems from his work De OrnatuMundi (2010): Amazônia,

 

 

Este artigo está publicado nos Anais do III Congresso Internacional de Literatura e Ecocrítica e I Conferência Bienal Asle Brasil, da página 383 a 402 destes Anais.

Publicado como e-Book sob o título: Diálogos ecocêntricos; arte, cultura e justiça (2017). ISBN: 978-85-66224-12-2. Disponível em: 2 Doutor em Letras pela Universidade Federal da Paraíba. Área de Concentração: Literatura e Cultura. E-mail para contato: professorvaltergomes@gmail.com. 2 Pantanal – Mar de Xaraés and Flora do Cerrado, to support the perspective transmited by the ecopoetry. With this discussion, this article intends to contribute to the studies about Ecocriticism through the ecocentric poetry in the area of Brazilian Literature. Key words: engaged literature, Ecocriticism, ecopoems, Antonio Miranda, subject, subjectivity.

 

 

 

                Com o avanço da modernidade, o ser humano necessita adaptar-se mais ao progresso. Estudos científicos, sociais, culturais, políticos, artísticos entre tantos são (re)discutidos, (re)tomados, (re)analisados e também surgem abordagens as quais requerem novos posicionamentos dos críticos e teóricos de nossa atualidade. Essas abordagens originam-se da relação do homem consigo, com seus estudos, reflexões e com o meio em que ele habita. As fontes do conhecimento humano, além de serem variadas, estão em constante desenvolvimento, pois a ação da intelectualidade de modo geral é inexaurível no tocante a produzir e contribuir com o avanço de um tempo que não cessa em inovar. Dentre as “novas” teorias que despontaram em nossa contemporaneidade, destacamos o estudo da Ecocrítica. E como ela se apresenta enquanto conceito, proposta e atuação? Pautamo-nos no que defende Cheryl Glotfelty (1996):

 

 A ecocrítica é o estudo da relação entre a literatura e o ambiente físico. Assim como a crítica feminista examina a língua e a literatura de um ponto de vista consciente dos gêneros, e a crítica marxista traz para sua interpretação dos textos uma consciência dos modos de produção e das classes econômicas, a ecocrítica adota uma abordagem dos estudos literários centrada na Terra (apud GARRAD, 2006, p. 14).

 

               Pelo exposto, vemos que se trata de um elo entre a natureza e arte literária. Daí suscitamos um questionamento: por que a ecocrítica necessita das Letras Literárias para consolidar-se enquanto teoria e crítica? Primeiramente, a literatura não está presa a limites para discutir e indagar sobre as complexidades que circunvizinham o homem e o mundo como um todo. Em segundo momento, a literatura “pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e portanto nos humaniza” (CANDIDO, 2011, p. 188). Como a literatura possui essa visão humanizadora, cuja finalidade é livrar o indivíduo do caos, no que afirma o crítico literário Antonio Candido, ela, necessariamente, condiz como um instrumento precípuo em defesa de uma consciência ecocrítica, porque, consoante Richard Kerridge (1998)

 

O ecocrítico almeja rastrear as ideias e as representações ambientalistas onde quer que elas apareçam, enxergar com mais clareza um debate que parece vir ocorrendo, amiúde parcialmente encoberto, em inúmeros espaços culturais. Mais do que tudo, a ecocrítica procura avaliar os textos e as ideias de sua coerência e utilidade como respostas à crise ambiental (apud GARRAD, 2006, p. 15).

 

                 Essa avaliação dos textos a que se destina a ecocrítica, buscando respostas à crise ambiental no mundo, vai encontrar o devido apoio através da literatura. Tratar-se-á de uma literatura engajada na edificação de textos que nos condicionam ao respeito à natureza, isto é, à construção de um sentimento que tende a enxergar a flora e a fauna como seres com direito de viverem a liberdade semelhante a que é vivenciada pelo homem. Se o homem é livre para ser o que é e viver como quer, é necessário instruí-lo de que a natureza que o circunda é um sujeito de direitos que também deve usufruir da integralidade da liberdade.

 

         Reconhecer a subjetividade da natureza é um passo humanizador por parte do indivíduo, uma vez que o educa, organiza-o a não agredir o direito de liberdade da natureza. Greg Garrard assevera que “os estudos culturais dos adeptos da libertação podem ser vistos como aliados importantes da ecocrítica, se não rigorosamente um ramo dela” (2006, p. 197). Com essa citação, chegamos à pretensão maior da ecocrítica: o direito de liberdade assegurado ao homem é igualmente compartilhado para com a natureza. Da mesma forma que os estudos culturais defendem a liberdade de expressão e a igualdade de direitos dos humanos discriminados pela cor, raça, condição social, orientação sexual ou por defenderem suas ideologias, esses mesmos estudos aliam-se em favor das causas ambientalistas. E à medida que depreendemos que a natureza possui o direito à liberdade, enxergamo-la como um sujeito. Ao obtermos essa compreensão da subjetividade da natureza, distanciamo-nos de olhar a natureza como um ser personificado, ou seja, um elemento sob o qual aplicamos o estilo retórico prosopopeico. Considerar um ser como sujeito não é torná-lo em pessoa, mas significa não o destituir dos direitos que lhe são assegurados enquanto sujeito que é.  Por isso, a proposta da ecocrítica não veicula a animização da natureza como assaz ocorreu nos textos literários do Romantismo ou entender que ela é um elemento decorativo, conforme se visualizava no Arcadismo. O sujeito é livre para ser aquilo que ele é. Greg Garrard, intensificando essa opinião libertária, pautando-se na igualdade entre os seres, acrescenta: “o “princípio da igualdade”, no utilitarismo, afirma que todos têm direito à mesma consideração moral, independentemente de família, raça, nação ou espécie” (Idem, p. 193).

 

                O autor, a partir do momento que corrobora a igualdade entre todos, sugere que da mesma forma que o homem é livre para viver como quer e ser o que deseja, a natureza também é livre para vivenciar a integralidade do seu ser e se ela o é, constata-se a subjetividade da mesma. O argumento do crítico nos leva ainda mais a compreender o caráter humanizador da Literatura. O princípio de igualdade entre todos nos organiza e, portanto, humaniza-nos perante o todo que nos circunvizinha, enxergando o outro como sujeito. E isso ocorre porque “a literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, à sociedade e ao semelhante” (CANDIDO, 1989, p. 117). Ante essa compreensão é que ratificamos mais uma vez quão essenciais são os textos literários para o discurso político da Ecocrítica.

 

Para visualizarmos essa postura libertária e também essa subjetividade da natureza, selecionamos da obra De Ornatu Mundi 3 (2010), (título latino que se traduz para a Língua Portuguesa como “Adorno do Mundo”) de Antonio Miranda 4 , os ecopoemas Amazônia, Pantanal – Mar de Xaraés e Flora do Cerrado para corroborar o olhar ecocêntrico que a ecopoesia desse livro transmite. Além do texto verbal, este livro também possui ilustrações científicas, de Álvaro Nunes, que dialogam com a flora e a fauna presentes nos versos. Iniciamos as leituras sobre as linhas poéticas através do primeiro ecopoema citado:

 

Amazônia

 

  1. Lá vai o Lobo d’Almada
    pelos portos do Amazonas,
    verdes margens,
     paisagem já memória.

Lá vai o Lobo d’Almada,
 apitando, singrando o rio.

 

2. Que é o homem
neste verde deserto, imenso,
desconhecido?

 

3 Lá vai o Lobo d’ Almada
em festa, cursando o rio:
Óbidos, Santarém, Almeirim,
minúsculos pontos no mapa.

 

Gaivotas suicidas

no tombadilho em festa,
caboclas sempre verão
e a umidade dos seios
e virilhas.

 

4. Lá vai o Lobo d’ Almada
pelo dulce mar de meus sonhos
infantis, de minhas aventuras

 

5. A lua no convés.
Onde o homem
nesta paisagem sem fundo
e sem começo,
ilhada e vazada de igapós?

 

6. O abraço do Rio Negro
ao Solimões,
abraço penetrante,
tons barrentos e escuros,
cambiantes:
vê-lo do avião, do navio,
do poema, a natureza comungando.
Lá vai o Lobo d’Almada.

 7. Manaus incrustada na selva
vivendo a memória
de seu ouro-borracha;
sobre toras, no rio, a cidade flutuante
e a torre abóboda
de seu faustoso teatro.


Uma promessa toda de prosperidade
e a natureza pesando sobre os homens.

 

(MIRANDA, 2010, p. 43-4)

 

 

 

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3 Essa obra foi editada pelo Jardim Botânico de Brasília que homenageou o ecopoeta Antonio Miranda com fotografias do artista, excertos de seus ecopoemas e as ilustrações de Álvaro Nunes que foram distribuídos pelas trilhas do espaço do Jardim Botânico a fim de dar o valor devido à obra De Ornatu Mundi (2010).

4 Antônio Lisboa Carvalho de Miranda é maranhense, nascido em 05 de agosto de 1940, poeta, prosador, dramaturgo e escultor. É membro da Academia de Letras do Distrito Federal. É professor aposentado da Universidade de Brasília, com Doutorado em Ciência da Comunicação pela USP (1987), Mestrado em Biblioteconomia na Lougborough University of Technology – LUT – Inglaterra (1975). Sua formação em Bibliotecologia é da Universidad Central de Venezuela, UCV, Venezuela (1970).

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As estâncias do ecopoema “Amazônia”, cujas linhas estão centralizadas no papel, foram construídas com versos livres. Essa liberdade de expressão presente na escrita do ecopoeta se coaduna com a liberdade vivenciada pela natureza que é descrita através das ações dos seres vivos que compõem todo o cenário natural. O espaço da Amazônia é detalhadamente esmiuçado, apresentando assim uma natureza virgem, cujo habitat não sofrera degradação através da interferência humana, isto é, a natureza é o sujeito em seu próprio espaço, conforme os conceitos da ecocrítica sugerem.

 

No primeiro verso, dá-se uma importância ao Lobo d’Almada pelo fato de ele estar referenciado com letra maiúscula e também por ele transitar livremente em seu habitat, os portos do Amazonas, ou seja, suas verdes margens. O primeiro verso é formado por uma quantidade maior de sílabas longas, isto é, tônicas, o que favorece uma introdução ecopoética com um ritmo forte. Destaca-se a presença deste lobo através de uma vibração intensa das 6 sílabas tônicas existentes no primeiro verso. E tal intensidade é reforçada pelo fato de este verso repetir-se mais quatro vezes em linhas ulteriores. Quando isso ocorre, a voz enunciadora do poema evidencia a liberdade sentida e vivida pelo lobo, pois o mesmo vai apitando e singrando o Rio Amazonas, vai, em festa, cursando o rio. É possível captarmos, com essas imagens, quão livres são a flora e a fauna da Amazônia.

 

Essa ideia de liberdade é associada, pelo eu ecopoético, a proporções grandes, erigindo um jogo, estilisticamente, antitético entre as palavras e as ideias. Enquanto o vocábulo Lobo d’Almada é citado com letras maiúsculas, o substantivo homem é escrito com inicial minúscula. A ação e o espaço daquele são ilimitados e grandiosos e a este lhe é atribuída uma condição reduzida tanto que a voz enunciadora propõe ao leitor a seguinte questão para reflexão: “Que é o homem”, “neste verde deserto”, “imenso, desconhecido?”. Este segundo verso é metáfora de Amazônia, uma vez que suas principais características são reforçadas através da sensorialidade visual com o efeito cromático do verde acrescido da dimensão do deserto. A crítica é mais evidenciada com o signo desconhecido, pois, se existe essa noção, entendemos que se trata de um ambiente que não foi completamente explorado pelo homem, já que esse espaço é detentor de considerável vastidão.

 

 A imagem de tamanho é reforçada quando se aponta para imensidão do Amazonas, o habitat do Lobo d’Almada, e para a pequenez geográfica das mesorregiões do Baixo Amazonas: Óbidos, Santarém e Almeirim. O eu ecopoético metaforiza esses municípios paraenses como minúsculos pontos no mapa, isto é, são lugares conhecidos, cuja natureza já sofrera com a ação humana, destituindo a natureza do direito de liberdade. Como a Amazônia e o Amazonas são lugares grandes e desconhecidos, sugere-se, com isso, que sejam livres ou, ecocriticamente, almejávamos que assim fosse: livres em sua completa constituição.

 

As antíteses entre animal x humano, grande x ínfimo, espaço conhecido x espaço desconhecido sugerem uma força reflexiva estimulando assim o olhar e o entendimento ecocríticos, porque essas oposições nos condicionam a captarmos a subjetividade da natureza. Como sujeito, a mesma tem o direito de desfrutar da liberdade conforme o homem também vivencia. E essa liberdade, por ser marcante, fica registrada na memória do eu ecopoético, segundo podemos perceber nos versos: “verdes margens”, “paisagem já memória”, “Lá vai o Lobo d’Almada”, “pelo dulce mar de meus sonhos”, “infantis, de minhas aventuras”.

 

Em paralelo ao lobo que cursa o Rio Amazonas, singrando-o, e também às memórias dessas imagens elencadas pelo eu ecopoético, surge, neste ecopoema, um navio cujo tombadilho é tomado por gaivotas suicidas, isto é, aves que caem em revoada ocupando todo o espaço em festa. E mesmo ante a presença de um navio cortando o rio, a natureza se destaca mais, através da presença das gaivotas, para, em seguida, dar espaço às caboclas da região que são evidenciadas pelas características sensuais: a umidade dos seios e das virilhas. Se estavam úmidas é porque prontas estariam para o coito. No entanto, esses versos não se destacam tanto no ecopoema como um todo. A ocorrência deles é para apontar que ao humano seria dada a atenção e quais os motivos para essa evidência, uma vez que a natureza é a protagonista da integralidade do texto, tanto que, na estância subsequente, o Lobo d’Almada volta a ter o seu destaque acrescido de outros elementos da natureza, como a lua que desponta sob o convés do navio, mostrando-se grande ao ponto de novamente a voz ecopoética indagar onde o homem estaria num espaço como este, numa “paisagem sem fundo”, “e sem começo”, “ilhada e vazada de igapós?”. A antítese entre grande x pequeno volta a sugerir reflexão ecocrítica neste ecopoema. A grandiosidade da natureza em oposição à pequenez humana reitera-se no texto a fim de elevar a subjetividade da natureza. Trata-se de um sujeito merecedor deste alto reconhecimento.

 

Por causa disso, após o pensamento crítico citado, o eu ecopoético ressalta mais uma vez a ação dos seres que compõem a Amazônia. Agora, isso é feito com a animização entre o Rio Negro e o Rio Solimões através do encontro dos rios metaforizado com o vocábulo abraço e este pontua as características constitutivas dessas águas fluviais com expressões que exploram as percepções sensoriais táteis e visuais: “penetrante”, “tons barrentos e escuros”, “cambiantes”. E, para o eu ecopoético, visualizar esse jogo de efeitos seja do avião, do navio ou através da própria escritura do poema (o que materializa, com essa palavra, a metalinguagem no texto) é captar a comunhão da natureza, isto é, a subjetividade da mesma, o que vem a ser reforçado novamente com o estribilho “Lá vai o Lobo d’Almada.”.

 

 A voz enunciadora chega à nona estrofe, em forma de oitava, recuperando Manaus em seu apogeu econômico, “vivendo a memória”, “de seu ouro-borracha”, “sobre toras, no rio, a cidade flutuante”, “e a torre abóboda”, “de seu faustoso teatro”. Essa urbe foi incrustada, ou seja, revestida com todo esse aparato de “crescimento”, porém a que preço? A voz ecopoética suscita essa indagação através das duas últimas linhas: “Uma promessa toda de prosperidade”, “e a natureza pesando sobre os homens”. Esses versos sugerem a exploração sofrida pela Amazônia que pesa sobre os homens. A crítica dessas frases incute uma ideia de indignação do eu ecopoético para com o que ocorrera à natureza. Os homens, obrigatoriamente no plural, pagaram um preço assaz alto por causa de toda uma promessa de prosperidade, porque a natureza, a partir do momento que se tornara um peso sobre eles, reclama, enquanto sujeito que ela é, pela liberdade que lhe foi destituída; pior, roubada. É necessário o olhar ecocrítico para sentir tal proposta, por isso que outros ecopoemas deste mesmo livro nos orientam à profundidade dessa reflexão; é o que vemos a seguir:

 

 

PANTANAL – MAR DE XARAÉS

vêem chuvas inclementes, suores, temores
na estação das águas incessantes, águas
vazantes, tamanhas águas, emendadas.


        águas subterrâneas, aflorantes, sazonais
        desde os limites do Alto Paraguai
        —capivaras, veados saltitantes, serpentes ondulantes.


        águas formando banhados,  extravagantes,
        cobrindo pastos, terras afogadas, águas
        inundando as várzeas, baixios,  águas!!!


        águas intermináveis interligando corixos,
        vastidões, descampados,  animais assustados,
        os peixes excitados, jacarés expectantes.

garças, tuiuiús, siriemas errantes.
        tamanduás,  araras azuis,  coatis, piranhas.
        poças, lagos, vertentes, afluentes — o Pantanal.


        inundados caminhos, as passagens
        interrompidas,  águas correntes, torrentes,
        aves em debandada, os homens ilhados.


        tropeiros em comitivas, vão migrando
        com o gado, a natureza impondo-se
        sobre qualquer vestígio de civilização.


        Êxodo e desolação até que a estação estanque, reverta:
        um pranto copioso, saudoso, pungente,
        uma guarânia distante, feijão tropeiro, tereré.

 

           (MIRANDA, 2010, p. 32-3)

 

                O título do ecopoema Pantanal – Mar de Xaraés remete-nos além da localidade à história e à constituição geográfica do lugar. O Pantanal divide-se entre o Brasil, o Paraguai e a Bolívia. Em terras brasileiras, ele ocupa o sul do Mato Grosso e o noroeste do Mato Grosso do Sul. Por se tratar de uma planície alagada, sob ele foi construído o mito de Mar de Xaraés. Essa nomenclatura marítima é antiga, data do século XVI, porém mítica. Xaraés é um nome de origem indígena que significa dono do rio. Com os três nomes que intitulam este ecopoema, o eu ecopoético referencia uma natureza aquática, própria do espaço, e tal característica é assaz reiterada nos versos do texto.

 

                No aspecto formal, percebemos que o ecopoeta equilibra estruturas tradicionais com livres, porque enquanto há estrofes metrificadas, como a primeira composta por versos alexandrinos, existem também estâncias com a metrificação mista. E, com exceção de um  único verso, ocorre a liberdade de expressão através das iniciais minúsculas na introdução das linhas ecopoéticas. A liberdade conteudística com que os seres da natureza interligam-se coaduna-se à liberdade de o poeta exprimir-se em sua escrita. Mais uma vez, conteúdo e forma interagem no aspecto libertário e a proposta ecocrítica se fortifica também nesse tipo de associação. Adentraremos mais na leitura do ecopoema a fim de captarmos da mensagem ecocrítica do texto.

 

         Na primeira estrofe, há uma recorrência grande da presença e da ação da água no espaço do Pantanal. Além de ela ser em grande quantidade, pois o eu ecopoético afirma que são tamanhas águas, elas se entrelaçam, devido ao fluxo das chuvas inclementes que intensificam o volume aquático ao ponto de este ser incessante, vazante, provocando suores e temores na estação das águas. A singularidade do adjetivo “inclemente” no primeiro verso sugere que a inundação controla tudo sem clemência alguma. A aliteração do fonema /s/ nas letras em itálico dos vocábulos “chuvas”, “suores”, “temores”, “estação”, “águas”, “incessantes”, “vazantes”, “entrelaçadas” possui sonoridade fricativa o que denota a postura avassaladora dessas águas. E, consoante o eu ecopoético, este volume aquático intenso é sazonal, isto é, próprio de um fenômeno natural que ocorre sempre em uma determinada época do ano, fazendo com que as águas subterrâneas aflorem, além também da intensidade pluviométrica que inunda mais a região, desde os limites do alto Rio Paraguai.

 

                Em meio a esse universo líquido, desponta a fauna pantaneira: capivaras, veados saltitantes e serpentes ondulantes. Animais estes que estão referenciados com ações que os caracterizam o que demonstra o grau de liberdade vivido por eles para habitarem o Pantanal saltitando, como os veados, ou rastejando de maneira ondulante como as serpentes. Esses seres sencientes convivem harmonicamente com o ambiente aquoso do Pantanal. As águas vão modulando o espaço e os seres que vivem neste território adequam-se às “águas formando banhados, extravagantes”, “cobrindo pastos, terras afogadas, águas”, “inundando as várzeas, baixios”. Isto é, a força da água é tão incrível ao ponto de a voz ecopoética exclamar reiterando três vezes o sinal exclamativo: “águas!!!”.

 

        As linhas ecopoéticas acrescem expondo e registrando a presença, a ação e a intensidade das águas em confluência com os seres e os espaços grandes e pequenos: “águas intermináveis interligando corixos”, “vastidões, descampados, animais assustados,”, “os peixes excitados, jacarés expectantes”, “garças, tuiuiús, siriemas errantes.”, “tamanduás, araras azuis, coatis, piranhas.”, “poças, lagos, vertentes, afluentes – o Pantanal.”. Percebamos a antítese entre as águas intermináveis interligando corixos e vastidões. Estes se destacam pela grandeza e aqueles são pequenos rios perenes. Os opostos no Pantanal unem-se e harmonizam-se gerando a beleza de todo ecossistema que o compõe, ao ponto de a voz ecopoética singularizar tudo o que foi elencado em um único nome: Pantanal. Este substantivo próprio surge no final do terceto da quinta estrofe como o representante de toda essa pluralidade ecológica, isto é, Pantanal é o sujeito cuja identidade é definida através dos seres vivos que o compõe e, mormente, retratam-no. Ressaltamos também a presença do artigo definido masculino que precede o vocábulo Pantanal especificando ainda mais quem é o sujeito detentor de tantas características naturais, as quais ocupam um destaque maior no texto, porque das oito estâncias deste ecopoema, cinco destinam-se a retratar o cenário pantaneiro e as outras três designam a ação humana ante o ecossistema que o circunvizinha. Isso demonstra a importância dada bem mais à natureza que ao homem a fim de que a subjetividade dela seja realmente evidenciada.

 

                Na sexta estrofe, o eu ecopoético retrata as consequências geradas pelo acúmulo de água: “inundados caminhos, as passagens”, “interrompidas, águas correntes, torrentes,”, “aves em debandada, os homens ilhados”. A metáfora de que o homem ficara ilhado aponta que o sujeito tem a liberdade cerceada em decorrência dos caminhos inundados e as passagens interrompidas. Seria como que a natureza podasse deste indivíduo a liberdade que ele retera dela. E, interessantemente, as enchentes prenderam o homem, mas as aves que compartilham de similar liberdade que as águas retiraram-se em debandada. Ao ser humano, é-lhe imposta a expulsão sem outra alternativa: “tropeiros em comitivas, vão migrando”, “com o gado, a natureza impondo-se”, “sobre qualquer vestígio de civilização.”. Essas linhas da sétima estância demarcam bem a subjetividade da natureza pelo fato de ela se impor sobre a humanidade, mostrando assim quem é maior e pode mais. A imagem redutora construída com as palavras “vestígio de civilização” estabelece o caráter de coisificação do homem. A partir daí, edifica-se uma grande antítese neste ecopoema: a subjetividade da natureza e a coisificação do humano, porque a natureza reclama pelo seu espaço.

 

         Esse entendimento aprofunda-se no último terceto quando o eu ecopoético intertextualiza uma narrativa bíblica através do nome “Êxodo” o qual designa bem a saída forçada e abrupta de um povo sofrido de uma região à outra. Reportando-nos à retirada do homem neste ecopoema, registram-se a desolação e a tristeza que acometeram o indivíduo por causa deste êxodo até que a estação das águas estanque, isto é, cesse e reverta o quadro de dor que foi erigido. O eu ecopoético intensifica bem essa imagem de sofrimento através da gradação crescente: “um pranto copioso, saudoso, pungente”. Essas adjetivações fortalecem a agonia sofrida pelo homem, até que fique apenas as memórias do que de bom existia: “uma guarânia distante, feijão tropeiro, tereré”. A guarânia é uma balada em ritmo lento própria da música paraguaia, o feijão tropeiro é um prato tipicamente regional característico do estado de Goiás que é próximo do Pantanal e o tereré é uma bebida elaborada com infusão de erva-mate em água fria.

 

          Esse último verso indica alguns traços da identidade do homem pantaneiro que foi deixada para trás devido ao êxodo provocado pelas enchentes. Mais uma vez percebemos outra significativa antítese: enquanto a identidade da natureza é elevada e registrada em liberdade como um sujeito, a do homem ficara na lembrança gerando dor e isolamento e, dessa forma, a voz ecopoética finda a história relatada. A ecopoesia foi erigida numa fusão de características da lírica e da narrativa a fim de que os fatos fossem narrados poeticamente e, principalmente, qual o eu que deveria ser evidenciado: a natureza. Captaremos um pouco mais dessa subjetividade no último ecopoema de Antonio Miranda (2010, p. 26-9. Grifos do autor) proposto para análise:

 

FLORA DO CERRADO

 

Pequis, araticuns,
 cajuís.
Veredas da solidão,
arbustos tortuosos, retorcidos,
ungidos sob o sol estival.

Árvores secas, queimadas,
renascidas, tortas,
carcomidas,
entre capins resvalantes
nos interflúvios,
nas encostas pedregosas.
Pedras lunares, cristais
e flores matinais
entre nasceres e morreres
contumazes.

Tem o araçá agridoce e arbustivo,
tem o bacupari de polpa
sobre caroços tungidos,
escondido sem cascas coriáceas.


E tem a curriola esverdeada
dos pássaros famintos
e o jatobá das farinhas
preparado com açúcar mascavo.
Tem a mangaba, murici,
mama-cadela, lobeira, gabiroba.
E as palmeiras jerivá,
Babaçu, macaúba, guariroba,
 emplumando a paisagem
 no cerradão do tropeiro
e do peão.
 E o peão sabe:
onde tem buriti tem água,
tem vida, brotação.

E haja espaço
e vez para louvar
 as orquídeas e as bromélias:
o Cythopodium eugenii
cilíndrico obeso bulboso
nos afloramentos alcalinos;
os gravatás de todos os nomes
armados e serrilhados
nas árvores
 e nos inselbergues ensolarados.
Testemunhos seculares
de endemismos.

 E,
guardião dos campos úmidos
restabelecidos,
o papalantus sobranceiro,
de roseta capilar,
esferoidal,
demarcando distâncias.
As nuvens plúmbeas
 querendo afogar a terra,
errantes, suspensas
como cogumelos alucinados,
como coágulos espessos.
Nuvens tingidas de vermelho,
nos horizontes abertos, teatrais,
 descortinantes e desconcertantes.

 

Nuvens orquestrais, plasmadas
contra o azul absoluto, total,
onipresente.
Nuvens movediças, baixas,
volumosas, assim gráceis
ou frágeis, ou densas
 e pretensas.
Cupinzeiros,
espinhos e folhas urticantes,
raízes tuberosas,
seivas e entranhas flagrantes
e fragrantes,
colinas ondulantes,
rochosas.


 O cerrado é campo aberto
 é grota é mata ciliar
 é cipó é maritaca e é tucano
quando não é siriema
e tatu e coruja e guará
nas vertentes nas encostas
nos varjões.
Nasce e renasce em ciclos
 estelares,
nas constelações decíduas
 de folhagens intermitentes,
metamorfoses, mutações.
A natureza aqui é árdua
e serena,
impassível, fossilizada,
sem beirada.
É fátua
é pródiga, profícua
infalível, implacável
– valham todos os adjetivos!

 

        O título do poema refere-se a um tipo específico de vegetação: a flora do cerrado, a qual é assaz característica da região de Brasília. O ecopoeta Antonio Miranda assiste em solo candango há muitos anos e isso serve de estímulo a retratar através de suas linhas poéticas o espaço em que habita. O descritivismo neste ecopoema além de constante é significativo porque tal recurso construirá todo o cenário que é fotografado através das letras ecopóeticas de “Flora do cerrado”. No tocante ao aspecto formal, o ecopoeta utiliza versos livres para coadunar a liberdade da natureza à de expressão, no texto. Todas as nove estrofes seguem este mesmo estilo.

 

            Quanto ao conteúdo, vemos que a introdução se diferencia da proposta aquosa do ecopoema anterior “Pantanal – Mar de Xaraés”, porque será o sol a projetar seus efeitos sobre a natureza e o sol brasiliense é conhecido por sua intensidade de calor. “Pequis, araticuns,”, “cajuís.”, “Veredas da solidão”, “arbustos tortuosos, retorcidos,”, “ungidos sob o sol estival”. Os dois primeiros versos dessa primeira estrofe reportam-se a frutos característicos do cerrado e o fato de os substantivos estarem no plural indica a quantidade dos mesmos na região onde brotam. Pequi possui uma textura espinhenta e dele é extraído um óleo denominado azeite de pequi. O araticum é um fruto da mesma família da pinha ou da fruta do conde e da graviola, pois os três são próprios do cerrado. A distinção entre eles é que o araticum possui um tamanho maior. O cajuí trata-se do caju característico do cerrado.

 

                 Este ecopoema é introduzido contextualizando o título uma vez que a flora do cerrado é citada e destacada ao ocupar com exclusividade a totalidade dos dois primeiros versos. E, nessa mesma estrofe, a voz ecopoética permuta antiteticamente do fruto para uma plantação destituída dele ao indicar os caminhos apertados através das veredas da solidão e dos arbustos tortuosos e retorcidos. Essas condições provocadas pela secura também são características do cerrado por causa do sol causticante dessa região. O eu ecopoético expõe a incidência ácida desses raios solares sobre estes arbustos: “ungidos sob o sol estival”. Percebamos que a aliteração do fonema /s/ neste verso possui sonoridade fricativa e isso designa o fervilhar dos raios solares sobre estes arbustos que chegam a retorcerem-se diante da intensidade da queima de calor. E a voz ecopoética dá continuidade dessa imagem atingida pela ação solar na estrofe seguinte: “Árvores secas, queimadas,”, “renascidas, tortas,”, “carcomidas,”, “entre capins resvalantes”, “nos interflúvios,”, “nas encostas pedregosas.”. Pelos vocábulos empregados, é perceptível uma isotopia de deformações provenientes da seca. Isso também caracteriza o cerrado em época de estio, mesmo essa plantação estando situada nos interflúvios que são regiões elevadas entre dois vales, a estiagem interfere nesse habitat; até também nas encostas pedregosas.

 

Nessa mesma estrofe, o eu ecopoético assevera que esse processo de mutação da vegetação é cíclico através da antítese presente nos versos: “Pedras lunares,”, “cristais”, “e flores matinais”, “entre nasceres e morreres”, “contumazes.”. Entre a noite e a manhã, o cerrado sofre a permuta do seu ciclo de vida e esse processo para a voz enunciadora é contumaz, isto é, obstinado e insistente mecanismo de nascer e morrer. À medida que as linhas ecopoéticas acrescem, toda a presença da natureza é minuciosamente citada, apontada como uma significativa existência a fim de que os seres, ou melhor, os sujeitos que habitam essa região sejam conhecidos na aparência e, principalmente, na essência.

 

                Vejamos como a substantivação designativa da flora é caracterizada pela adjetivação que modela a estrutura da vegetação referenciada: “Tem o araçá agridoce e arbustivo,”, “tem o bacupari de polpa”, “sobre caroços tungidos,”, “escondido”, “sem cascas coriáceas.”. O araçá é uma planta cujo fruto possui mesmo nome e o fato de existirem o agridoce e o arbustivo, o eu ecopoético fez menção à variedade desse vegetal. O bacupari é um fruto de teor medicinal dificilmente encontrado nas áreas urbanas e, segundo a voz ecopoética, este é detentor de uma polpa com caroços escondidos sem cascas coriáceas, ou seja, sem que a casca tenha a textura do couro.

 

                 Nessa estância, a ocorrência da assonância da vogal aberta /a/ fornece uma abertura na pronúncia das palavras que singulariza a presença dos elementos “araçá”, “agridoce”, “arbustivo”, “bacupari”, “cascas”, “coriáceas”. Da mesma forma que a oclusividade das consoantes /d/, /b/, /p/ e /k/ nos vocábulos “agridoce”, “arbustivo”, “bacupari”, “polpa”, “caroços”, “escondido”, “cascas” e “coriáceas” proporciona uma vibração e impacto maiores no ato de enunciá-los. E ao unirmos um termo aparentemente pouco conhecido, no Brasil, à sonoridade plousiva, obtemos uma associação que prende a atenção do leitor para singularidade da palavra. Outro detalhe dessa estrofe é a ocorrência de “escondido” com exclusividade em um único verso, seria como se a palavra ficasse escondida ante as linhas ecopoéticas que são maiores e preenchidas de vogais abertas. Materializa-se com essa acepção o isomorfismo, pois conteúdo e forma unem-se a fim de contextualizar a mensagem.

 

 A variedade da flora do cerrado é grande na mesma proporção que as linhas ecopoéticas que compõem as nove estrofes deste ecopoema e vão mencionando a particularidade de cada planta e animal. Como se segue: “E tem a curriola esverdeada”, “dos pássaros famintos”, “e o jatobá das farinhas”, “preparado com açúcar mascavo.”, “Tem a mangaba, murici,”, “mama-cadela, lobeira, gabiroba.”, “E as palmeiras jerivá,”, “babaçu, macaúba, guariroba,”, “emplumando a paisagem”, “no cerradão do tropeiro”, “e do peão.”. A palavra “curriola”, entre outros significados ecocêntricos, é um coletivo que é sinônimo do vocábulo “bando” e retrata, através da linguagem característica da região, a pluralidade dos pássaros. A riqueza desta diversidade do cerrado leva o leitor perscrutar cada peculiaridade citada da flora e da fauna deste local. Além disso, essa estrofe é um misto de retrato da natureza em confluência com a presença humana, pois, a partir do terceiro verso, a voz ecopoética faz menção à extração da farinha do jatobá cuja preparação é com açúcar mascavo. E para esse processo ocorrer, é necessária a ação do homem na produção dessa farinha.

 

         Os frutos e a vegetação do cerrado são sujeitos que unidos constituem uma subjetividade maior: a natureza do cerrado. Essa flora além de ser típica da região, algumas palavras possuem similaridade fonêmica entre si, proporcionando a aliteração do fonema /m/ no conjunto dos vocábulos: “mangaba”, “murici”, “mama-cadela”, “palmeira”, “macaúba”, “emplumando”. A mangaba é uma fruta doce e amarelada conhecida além dos limites do cerrado. O murici é um fruto do muricizeiro que se trata de uma fruteira arbustiva. Já a mamacadela é uma planta medicinal muito comum no cerrado. No que se refere à macaúba, trata-se de uma palmeira que possui espinhos longos e pontiagudos e por causa disso a planta é conhecida também pelo nome de coco-de-espinho ou macaíba; seus frutos possuem uma coloração marrom-amarelada. Já as palmeiras jerivá são altas, suas folhagens são largas, espaçosas e finas. Essas descrições são parecidas com a palmeira do buriti que é uma planta característica do cerrado e diferencia-se um pouco do jerivá pelo fato de a copa daquele ser mais arredondada, além também de os frutos serem de um vermelho intenso cuja casca é fragmentada em compartimentos. O ecopoeta Antonio Miranda compôs um ecopoema de exclusividade ao buriti, intitulando-o como o nome vulgar da planta que é esse mais o subtítulo com a nomenclatura latina desse vegetal, Mauritia flexuosa. Da mesma forma que existe, nesta mesma obra, outro ecopoema intitulado Cerrado o que designa a importância da vegetação do habitat do ecopoeta Antonio Miranda. Por ser familiar ao indivíduo do cerrado, o homem conhece as peculiaridades mais necessárias e vitais da flora desse local, conforme o eu ecopoético enuncia nos versos: “E o peão sabe:”, “onde tem buriti tem água,”, “tem vida, brotação.”. Percebamos que a figura de retórica da anáfora do verbo ter no sentido de existir, nessas linhas, reforçam as marcas da oralidade no ecopoema; linguagem própria não apenas da enunciação corriqueira de um falante, mas do peão e do tropeiro (aquele que é condutor da tropa) do cerrado. Essa reiteração indica também a proximidade que ambos têm com essa vegetação, porque se há a presença de buriti, valores maiores, numa escala gradativa, são obtidos com essa existência: água, vida e brotação. Isso tudo emana do cerrado mostrando as qualidades que se originam desse espaço. Qualificativos estes que Álvaro Nunes, ilustrador do livro De Ornatu Mundi (2010), retratou com riqueza de detalhes, através de gravuras com cores brilhosas e vivas a fim de realmente mostrar a grandeza do cerrado. Segue a primeira imagem:

 

 

Figura 1 – Palmeiras do Cerrado
(NUNES, 2010, p. 79)

 

        O título da gravura Palmeiras do Cerrado retrata a variedade Existente no cerrado e a imagem demonstra quão exóticos são estes frutos com suas colorações diversificadas, tamanhos distintos, texturas da casca, a disposição das frutas entre si, a espessura diferente do galho que as sustenta, a harmonia da folhagem que envolve as massas frutíferas, os tons e sobretons das cores que se amalgamam na mesma fruta, a gradação do processo de mutação da flor para o fruto conforme se vê no desenho da fruta central da gravura. No conjunto da obra, é possível identificarmos a pequenez dos frutos avermelhados da palmeira jerivá, o amarelado da macaúba, a disposição aglomerada com o tom amarronzado do fruto do babaçu, entre outras peculiaridades botânicas que prendem a atenção do observador em tão detalhada imagem.

 

        Como já exposto anteriormente, são partes de um todo, são sujeitos que unidos constituem uma subjetividade maior: a natureza do cerrado. Da mesma forma que o artista Álvaro Nunes registrou o detalhamento num conjunto das palmeiras, ele também retratou a singularidade minuciosa, profundamente descritiva do fruto de uma única palmeira: o buriti, como vemos

no desenho seguinte:

 

 

Figura 2 – Mauritia flexuosa
 (NUNES, 2010, p. 78)

 

 

        Mauritia flexuosa, segundo já exposto, é a nomenclatura científica de origem latina para o já argumentado buriti. Na gravura, vemos um cacho dessa planta dividido entre os frutos, as flores e galho que os prende. É perceptível a similaridade compartimentada entre o galho, a flor e o fruto. Os três estabelecem sintonia entre si pelo fato de serem compartimentados. As cores correspondem-se do marrom-claro ao vermelho. Pela gravura, percebemos o cuidado e o empenho que o desenhista Álvaro Nunes teve em fazer com que o desenho seja fidedigno ao objeto retratado. Pela arte apresentada em si, depreendemos o quanto de plural há para conhecer da flora do cerrado. Por isso que, ainda neste ecopoema, a voz ecopoética dedica-se a detalhar também outros sujeitos de mesmo valor: as flores e os animais.


        Na quinta estrofe, o eu ecopoético ergue a voz em louvor à beleza das flores: “E haja espaço”, “e vez para louvar”, “as orquídeas e as bromélias:”, “o Cyrthopodium eugenii”, “cilíndrico obeso bulboso”, “nos afloramentos alcalinos;”, “os gravatás de todos os nomes”, “armados e serrilhados”, “nas árvores”, “e nos inselbergues ensolarados.”. Os dois versos que introduzem essa estância marcam bem a importância que será dada ao sujeito através dos signos “e haja espaço e vez para louvar”. A anáfora do conectivo aditivo e somam as identidades, isto é, os sujeitos que constroem o espaço do cerrado. Ao empregar a palavra “louvar” às flores, o eu ecopoético sugere o seu encantamento e apreço pela singularidade que aflora dos sujeitos exaltados. Neste caso, são as orquídeas e as bromélias. Estas ainda são especificadas: o Cyrthopodium eugenii (nome científico de origem latina que determina uma espécie das bromélias) e os gravatás. Aquele é caracterizado como cilíndrico, obeso e bulbosoque surge nos afloramentos alcalinos, isto é, nas regiões alcalinas. Já os gravatás despontam serrilhados nas árvores e nos inselbergues (espaço montanhoso) ensolarados. Para a voz ecopoética, essas plantas são metaforicamente testemunhos seculares de endemismos, isto é, espécies nativas de uma única área. Álvaro Nunes também retratou a beleza dessas bromélias poeticamente exaltadas neste ecopoema:

 

 

Figura 3 – Bromelia reversacantha

(NUNES, 2010, p. 68)

 

 

Figura 4 – Bromelia sp

(NUNES, 2010, p. 69)

 

 

        A gravura retrata a diversidade dessa flor como também as semelhanças na folhagem com espinhos, no vermelho forte e, principalmente, a beleza exuberante, exótica e singular da flor do cerrado.

 

        Os desenhos exploram a flor em dois ângulos: a vista de cima e a lateral a fim de que o observador possa realmente captar as características e colher na enunciação ecopoética os traços e a beleza do cerrado. E, pela voz enunciadora, as belezas do cerrado ultrapassam o universo terrestre e materializam-se também no âmbito celeste. “As nuvens plúmbeas”, “querendo afogar a terra,”, “errantes, suspensas”, “como cogumelos alucinados,”, “como coágulos espessos.”, “Nuvens tingidas de vermelho,”, “nos horizontes abertos, teatrais,”, “descortinantes e desconcertantes.”, “Nuvens orquestrais, plasmadas”, “contra o azul absoluto, total,”, “onipresente”, “Nuvens movediças, baixas,”, “volumosas, assim gráceis”, “ou frágeis, ou densas”, “e pretensas”. Percebemos que a anáfora do substantivo nuvens apresenta o avanço do horário no cerrado. A maneira como a voz ecopoética explorou a estilística da palavra erigindo as figuras de linguagem serviu para construir a mudança dos turnos matutino ao noturno.

 

        As nuvens metaforizadas com a coloração plúmbea e retoricamente comparadas aos cogumelos alucinados ou aos coágulos espessos querendo afogar a terra errantemente reportam-nos ao horário da noite ou o tom de chumbo pode remeter-nos à fase chuvosa, principalmente porque a natureza aquosa do vocábulo afogar ajuda-nos a corroborar essa ideia. Já as nuvens vermelhas, as quais sugerem o crepúsculo vespertino, despontam no horizonte aberto metaforicamente como um teatro, descortinando a beleza do cenário e desconcertando o telespectador com a cena de ruborização e êxtase pelo o que se vê.

 

        As nuvens metaforizadas de orquestras, as quais se amalgamam contra o azul absoluto, total e onipresente, fazem referência à beleza aprazível das nuvens. Além disso, o vocábulo nuvens remete a uma percepção sensorial visual e orquestra explora a natureza visual e auditiva, constituindo assim a figura retórica da sinestesia e essa junção sugere que o bemestar proporcionado por essas nuvens atinge mais de um dos cinco sentidos. O universo de beleza vai além do que se registra através dos olhos. Independente do tipo de nuvem, ela chamará a atenção daquele que enxerga seu aspecto movediço, baixo, volumoso ou denso.

 

        A voz ecopoética faz questão de especificar tudo com detalhes e para concluir a descrição, o eu enunciador retorna suas pontuações à flora e fauna do cerrado. “Cupinzeiros,”, “espinhos e folhas urticantes,”, “raízes tuberosas,”, “seivas e entranhas flagrantes”, “e fragrantes,”, “colinas ondulantes”, “rochosas”. Por estes versos, percebemos que textura, espessura, estilo, tamanho, entre outros aspectos é detalhado a fim de que se tornem 20 conhecidas as características do cerrado. A paronomásia existente entre as palavras “flagrantes” e “fragrantes” sugere esse pretenso conhecimento profundo sobre o cerrado, uma vez que a visão e o olfato funcionam como identificadores de um sujeito: a natureza.

 

        Por isso, o eu lírico amplia seu foco de observação avançando dos pontos minuciosos para os maiores na oitava estrofe. “O cerrado é campo aberto”, “é grota é mata ciliar”, “é cipó é maritaca e é tucano”, “quando não é siriema”, “e tatu e coruja e guará”, “nas vertentes nas encostas”, “nos varjões.”. A palavra aberto indica a liberdade existente no cerrado. As grotas são aberturas que as águas da enchente fazem na ribanceira de um rio. A mata ciliar se trata de uma vegetação florestal que acompanha os rios de médio e grande porte do cerrado. E, nesse espaço, vivem entre si o maritaca (periquito verde-amarelo), o tucano, a siriema (ave de médio porte que prefere correr a voar), o tatu, a coruja e o guará. Todos ocupando as vertentes (divisão menor), as encostas (declives) e os varjões (região de várzea muito grande).

 

        Como a voz enunciadora apontou o cerrado nasce e renasce em ciclos estelares, passando pela metamorfose da seca com as constelações decíduas (plantas que perdem suas folhas na seca) e com as folhagens intermitentes (folhagem que não é contínua). A mutação do cerrado o torna cada vez mais vivo e, principalmente, livre porque se sofre metamorfose, vivencia um processo natural da vida. Devido a essa variação de mudança que o eu ecopoético asseverou que a natureza do cerrado é árdua, serena, impassível, fossilizada, sem beirada, fátua, pródiga, profícua, infalível, implacável; valendo todos os adjetivos para caracterizar a pluralidade do cerrado. E toda essa diversidade é com a intenção de reconhecer a subjetividade da natureza.

 

        Em todos os ecopoemas analisados, é possível identificarmos o respeito dado pelo ecopoeta Antonio Miranda à natureza a fim de que a mesma tenha a sua integridade e a sua liberdade mantidas como sujeito que ela é. Essa é a significativa proposta da ecocrítica. E a literatura, que possui a função humanizadora, leva o indivíduo à reflexão sobre a maneira correta que ele deve se relacionar com a natureza. Com essa conscientização, alcançaremos a harmonia no ecossistema.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

CANDIDO, Antonio. O Direito à Literatura. In: ________. Vários Escritos. 5. ed., Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2012.

 

GARRARD, Greg. Ecocrítica. Trad. Vera Ribeiro. Brasília: Editora UNB, 2006.

 

MIRANDA, Antonio. De Ornatu Mundi. Brasília: LGE/ Jardim Botânico de Brasília, 2010.

 

 

 

Página publicada em março de 2018 no PORTAL DE POESIA-IBERO-AMERICANA - ISSN 2447-1178  para o Curriculo Lattes.


 

 

 

 
 
 
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