No Festival de poesia de Goyaz, 2006.
Foto de Juvenildo B. Moreira |
AFFONSO ROMANO DE SANT´ANNA
Acompanho a obra deste grande poeta desde a minha (e a dele) juventude, nos idos de 60… Estudioso de Carlos Drummond de Andrade – em estudos acadêmicos – sempre foi independente de todas as tendências da moda, mesmo do seu ídolo e coterráneo mas exercitou todos os estilos e tendências ao seu alcance, de forma livre. Engajado, erótico, circunstancial, filosófico, valeu-se de todo e qualquer tema com discursividade ou concisão. Ele foi o escolhido para iniciar uma série de publicações bilingües em edição simultânea com a revista ZONA MOEBIUS, de Buenos Aires, Numa seção que (ainda estamos) montando — LUAR, voltada para a divulgação dos mais importantes poetas ibero-americanos contemporâneos.
Antonio Miranda
Sylvia Cyntrão e Affonso Romano de Sant´Anna, homenageado do I Simpósio de Crítica de Poesia, e conferencista principal na abertura da I BIENAL INTERNACIONAL DE POESIS DE BRASÍLIA, dia 3 de setembro de 2008.
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
Traducciones de Rafael Ruiz (Argentina)
A GRANDE FALA DO ÍNDIO GUARANI (1978)
(fragmento)
3
E a pergunta martela e pousa
como um corvo
no desespero aberto da janela.
- Quem escreveria o poema de meu tempo?
- Eu próprio? Mas, com que mãos, arroubos, insânias?
com que vaidades, prêmios, vexames?
Fala alguém por alguém
- com alheio coração?
Vive alguém por alguém
- ou morre sempre aquém da própria mão?
Não seriam a fala
o amor
a vida
a metafórica versão do exílio
o brilho da apagada estrela
ausência e concreção do nada?
Sim, é verdade que cada dia sei mais do que se compõem a poesia e o nada.
Debulho poemas e milharais
como o camponês aduba estrofes e mulheres.
Mas me sinto maduro e inútil. Como ontem:
- imaturo e fútil.
Não acordo mais às cinco
não selo mais o animal
desesperam-me os vegetais. Do pomar
olho minha inútil biblioteca. Doirados
frutos na estante..
Inutilíssima sapiência. Sabíamos tudo.
Merecíamos tudo. Tínhamos até fé.
Outrora eu passeava entre canteiros de enciclopédias
limpando pulgões podando ervas e páginas. Perdia-me
na contemplação da abelha sobre as letras:
- favos de mel derramavam-se da estante.
Todos nós líamos os poetas
mas não lavramos um mundo mais justo,
E enquanto soturnos decifrávamos as tabuinhas dos
caldeus os mais astutos e modernos
empolgavam o poder e o generais
marcando em nossas testas anátemas fatais.
E líamos grossos romancistas
exalando suor vermelho e revoltas sobre a praça.
Povo era a palavra
e o amanhã era a palavra
da palavra povo.
Mas porque estava tudo escrito
nosso futuro
petrificado
de nós se alienou.
Ontem soltávamos pombas nos estádios
éramos livres, juvenis e a paz um poster de Picasso.
Mas foram-se os posters e Picasso
- e as pombas não voltaram nunca mais.
Nossos pais também liam os poetas
citavam os clássicos
e pelas noites com seus robes tomavam chávenas
e liam dourados tomos sem ver as traças
- que nos comem.
Mas os acontecimentos desviaram-se dos livros
e por mais que entulhássemos os cursos de história
de novo a história
desviava-nos seus rios
e os livros
nem sempre férteis
aprodreciam no Nilo.
E sobrevieram borrascas e explodindo códigos e leis
que eram logo dissolvidos e refeitos em novas leis
e códigos. E erguíamos diques e parágrafos murando o mar
e a ressaca dos fatos
- a tudo rebentar.
A vida, a vida é mais que profecias e algemas
a vida é irrefreável
não se contém nas lâminas
partidos
nem nos fichários
e antenas
a vida
- é o impoemável poema.
QUE PAÍS É ESTE? (1980)
(fragmento)
para Raymundo Faoro
Puedo decir que nos han traicionado? No. Que
todos fueron buenos? Tampoco. Pero allí está
una buena voluntad, sin duda y sobretodo, el ser así.
CÉSAR VALLEJO
1
Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.
Uma coisa é um país,
outra um regimento.
Uma coisa é um país,
outra o confinamento.
Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno “Avante”
- e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um “berço esplêndido” para um “futuro radioso”
e éramos maior em tudo
- discursando rios e pretensão.
Uma coisa é um país,
outra um fingimento.
Uma coisa é um país,
outra um monumento.
Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.
Deveria derribar aflitos mapas sobre a praça
em busca da especiosa raiz? ou deveria
parar de ler jornais
e ler anais
como anal
animal
hiena patética
na merda nacional?
Ou deveria, enfim, jejuar na Torre do Tombo
comendo o que as traças descomem
procurando
o Quinto Império, o primeiro portulano, a viciosa visão do paraíso
que nos impeliu a errar aqui?
Subo, de joelhos, as escadas dos arquivos
nacionais, como qualquer santo barroco a rebuscar
no mofo dos papiros, no bolor
das pias batismais, no bodum das vestes reais
a ver o que se salvou com o tempo
e ao mesmo tempo
- nos trai.
ARTE FINAL
Não basta um grande amor
para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
que o amor da gente.
O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.
Uma coisa é a letra,
e outra o ato,
- quem toma uma por outra
confunde e mente.
GAIA CIÊNCIA
Gosto de me iludir
pensando
que hoje amo
melhor que ontem amei.
Assim desculpo o jovem afoito
que, em mim, me antecedeu
e, generoso, encho de esperanças
o velho sábio
que amará melhor que eu.
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Epitáfio para o século XX
1.
Aqui jaz um século
onde houve duas ou três guerras
mundiais e milhares
de outras pequenas
e igualmente bestiais.
2.
Aqui jaz um século
onde se acreditou
que estar à esquerda
ou à direita
eram questões centrais.
3.
Aqui jaz um século
que quase se esvaiu
na nuvem atômica.
Salvaram-no o acaso
e os pacifistas
com sua homeopática
atitude
-nux vômica.
4.
Aqui jaz o século
que um muro dividiu.
Um século de concreto
armado, canceroso,
drogado,empestado,
que enfim sobreviveu
às bactérias que pariu.
5.
Aqui jaz um século
que se abismou
com as estrelas
nas telas
e que o suicídio
de supernovas
contemplou.
Um século filmado
que o vento levou.
6.
Aqui jaz um século
semiótico e despótico,
que se pensou dialético
e foi patético e aidético.
Um século que decretou
a morte de Deus,
a morte da história,
a morte do homem,
em que se pisou na Lua
e se morreu de fome.
7.
Aqui jaz um século
que opondo classe a classe
quase se desclassificou.
Século cheio de anátemas
e antenas,sibérias e gestapos
e ideológicas safenas;
século tecnicolor
que tudo transplantou
e o branco, do negro,
a custo aproximou.
8.
Aqui jaz um século
que se deitou no divã.
Século narciso & esquizo,
que não pôde computar
seus neologismos.
Século vanguardista,
marxista, guerrilheiro,
terrorista, freudiano,
proustiano, joyciano,
borges-kafkiano.
Século de utopias e hippies
que caberiam num chip.
9.
Aqui jaz um século
que se chamou moderno
e olhando presunçoso
o passado e o futuro
julgou-se eterno;
século que de si
fez tanto alarde
e, no entanto,
-já vai tarde.
10.
Foi duro atravessá-lo.
Muitas vezes morri, outras
quis regressar ao 18
ou 16, pular ao 21,
sair daqui
para o lugar nenhum.
11.
Tende piedade de nós, ó vós
que em outros tempos nos julgais
da confortável galáxia
em que irônico estais.
Tende piedade de nós
-modernos medievais-
tende piedade como Villon
e Brecht por minha voz
de novo imploram. Piedade
dos que viveram neste século
— per seculae seculorum.
Usei o poema EPITÁFIO PARA O SÉCULO XX durante dois ou três semestres no Curso de Pós-graduação em Ciência da Informação, na Universidade de Brasília, na disciplina que então ministrava – Informação, Desenvolvimento e Sociedade. Os alunos liam e fazíamos uma verdadeira heurística do texto. Por que?
O poema de Affonso é o que eu chamo de legítimo “poema-ensaio”, com um conteúdo informacional preciso, no que Roberto Juarroz chamaria de “poiesofia”. Produto de um scholar que disserta magistralmente sobre o tema com eruditismo e domínio da técnica poética, em que as informações se conformam em versos rítmicos de “palavra-puxa-palavra” mas não por simples intenção onomatopaica, mas, sobretudo, significante, coisificante. Sucessor de Drummond, conhecedor do poema processo (que até deve ter combatido em seus excessos formalísticos), os versos compõem um mosaico que analisa e cristaliza uma visão crítica do/no ocaso do século passado. Magistral é a palavra que eu uso tanto para significar a magnificência dos versos quanto seu didatismo.Exige do leitor uma interpertação a partir das palavras-chave que invoca em seu discurso “exemplar”, de contexto, de posição histórica e crítica sobre os elementos citados, que devem necessariamente ser do conhecimento do leitor. Poema síntese de idéias e valores que “dan relevamiento” a um século que se foi, e que foi tarde...
Antonio Miranda
TEXTOS EN ESPAÑOL
Textos de Ricardo Ruiz
(Argentina)
EL GRAN HABLA DEL ÍNDIO GUARANÍ (1978)
(fragmento)
3
Y la pregunta martilla y se posa
como un cuervo
en la desesperación abierta de la ventana.
- ¿Quién escribiría el poema de mi tiempo?
- ¿Yo mismo? ¿Mas, con que manos, éxtasis, locuras?
¿con que vanidades, premios, vejámenes?
Habla alguien por alguien
- ¿con ajeno corazón?
Vive alguien por alguien
- ¿o muere siempre de este lado de mano propia?
¿No serían el habla
el amor
la vida
la metafórica versión del exilio
el brillo de una estrella apagada
ausencia y concreción de la nada?
Sí, es verdad que cada día se más de lo que se componen la poesía y la nada.
Desgrano poemas y maizales
como un campesino abona estancias y mujeres.
Pero me siento maduro e inútil. Como ayer:
- inmaduro y fútil.
No me levanto más a las cinco
no yerro mas al animal
me desesperan los vegetales. Del huerto
veo mi inútil biblioteca. Dorados
frutos en el estante.
Inutilísima sabiduría. Sabíamos todo.
Merecíamos todo. Teníamos hasta fe.
Otrora yo paseaba entre canteros de enciclopedias
limpiando pulgones podando hierbas y páginas. Me perdía
en la contemplación de la abeja sobre las letras:
- celdas de miel se derramaban del estante.
Todos nosotros leíamos a los poetas
mas no labramos un mundo mas justo.
Y en cuanto taciturnos descifrábamos las tablillas de los
caldeos los más astutos y modernos
entusiasmaban al poder y a los generales
marcando en nuestras cabezas anátemas fatales.
Y leíamos sólidos novelistas
exhalando sudor rojo y revueltas sobre la plaza.
Pueblo era la palabra
y el mañana era la palabra
de la palabra pueblo.
Mas porque estaba todo escrito
nuestro futuro
petrificado
de nosotros se apartó.
Ayer soltábamos palomas en los estadios
éramos libres, jóvenes y la paz un poster de Picasso.
Pero se fueron los posters y Picasso
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