No Festival de poesia de Goyaz, 2006.
Foto de Juvenildo B. Moreira |
AFFONSO ROMANO DE SANT´ANNA
Acompanho a obra deste grande poeta desde a minha (e a dele) juventude, nos idos de 60… Estudioso de Carlos Drummond de Andrade – em estudos acadêmicos – sempre foi independente de todas as tendências da moda, mesmo do seu ídolo e coterráneo mas exercitou todos os estilos e tendências ao seu alcance, de forma livre. Engajado, erótico, circunstancial, filosófico, valeu-se de todo e qualquer tema com discursividade ou concisão. Ele foi o escolhido para iniciar uma série de publicações bilingües em edição simultânea com a revista ZONA MOEBIUS, de Buenos Aires, Numa seção que (ainda estamos) montando — LUAR, voltada para a divulgação dos mais importantes poetas ibero-americanos contemporâneos.
Antonio Miranda
Sylvia Cyntrão e Affonso Romano de Sant´Anna, homenageado do I Simpósio de Crítica de Poesia, e conferencista principal na abertura da I BIENAL INTERNACIONAL DE POESIS DE BRASÍLIA, dia 3 de setembro de 2008.
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
Traducciones de Rafael Ruiz (Argentina)
Veja também: TEXTS EN FRANÇAIS
See also: TEXTS IN PORTUGUESE & ENGLISH
Veja também: POEMAS VISUAIS
e viste a página oficial do autor:
http://www.affonsoromano.com.br/
De
Affonso Romano de Sant´Anna
SÍSIFO DESCE A MONTANHA
Rio de Janeiro: Rocco, 2011. 131 p.
Affonso Romano de Sant´Anna publica novos livros com certa frequência, renovando-se. Sua poesia sempre se alimentou de sua atividade intelectual. Crítica literária, estética, pensamento político, poética. Ensaio e crônica. Seus livros de poesia sustentam suas ideias e suas propostas formais, desde o tempo em que estudou a obra de Drummond e os movimentos de vanguarda brasileiros, que acompanhou à distância, contaminando-se, mas nunca aderindo. Poesia social, concretismo, poesia marginal... Nunca vacinou-se contra estas tendências, mas jamais entrou nas fileiras dos ismos de seu tempo. Do filosófico ao amoroso, do erótico ao especulativo. A.M.
CAI A TARDE SOBRE MEUS OMBROS
Cai a tarde
sobre meus ombros
não apenas
sobre os Dois Irmãos.
Desaba mais um dia.
Para muitos — de esperança.
Para outros — de humilhação.
Sobre mim
desaba a história.
Em algum lugar
disseram que há luz
mas o que vejo
— é a escuridão.
ALÉM DE MIM
Não é culpa minha
se não estou aparelhado
para entender certos conceitos
e sinais.
Conheço o ódio, o amor, a fome
a ingratidão e a esperança.
(Deus, a eternidade, o átomo e a bactéria
me excedem.)
O que não significa
que os ignore.
Ao contrário:
por não compreendê-los
finjo estar calmo
— e desespero.
Affonso Romano de Sant´Anna
A MORTE DA BALEIA
desenhos de Elisa Villares de Freitas
Rio de Janeiro: Berlendis & Vertecchia Editores, 1981.
s.p. 15.5x22,5 cm
Exemplar desta edição incomum, adquirido via sebo virtual. Sem informação quanto ao número de exemplares. O poema foi escrito em protesto pelo extermínio "oficial" de baleias na região da Paraíba. No sitio oficial do poeta está a informação,:
"Nos anos 70 escrevi o poema A MORTE DA BALEIA. A artista plástica Renina Katz, na USP, fez uma serie de livros artesanais com seus alunos de arte a partir do poema. A editora Berlendis fez uma edição especial do poema. O compositor Cesar Barreto,no Ceará, musicou-o partes dele. Drummond me escreveu cumprimentando pelo poema:
Este texto está em QUE PAIS É ESTE?. O poema, dividido em nove partes, começa assim":
Na Paraíba, Nordeste do pais,
Convidam-me a ver a morte da baleia.
Dizem: pesca da baleia como se dissessem: jogar tênis
ou qualquer outro esporte
em que o animal
participasse alegremente.
Dizem: pesca da baleia como se dissessem: ir à missa
onde Cristo morreria impunemente.
Dizem: pesca da baleia como se dissessem: carnaval
onde se brinca eternamente.
O espetáculo dura toda a noite
e quem o assiste não pensa em assassinato.
Pensa:
Vou como quem vai às compras
— ou algo semelhante, vou visitar parentes
ou ver filme interessante,
Ninguém diz: vou ao enterro da baleia
—que em mim mato e morre a cada instante.
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A GRANDE FALA DO ÍNDIO GUARANI (1978)
(fragmento)
3
E a pergunta martela e pousa
como um corvo
no desespero aberto da janela.
- Quem escreveria o poema de meu tempo?
- Eu próprio? Mas, com que mãos, arroubos, insânias?
com que vaidades, prêmios, vexames?
Fala alguém por alguém
- com alheio coração?
Vive alguém por alguém
- ou morre sempre aquém da própria mão?
Não seriam a fala
o amor
a vida
a metafórica versão do exílio
o brilho da apagada estrela
ausência e concreção do nada?
Sim, é verdade que cada dia sei mais do que se compõem a poesia e o nada.
Debulho poemas e milharais
como o camponês aduba estrofes e mulheres.
Mas me sinto maduro e inútil. Como ontem:
- imaturo e fútil.
Não acordo mais às cinco
não selo mais o animal
desesperam-me os vegetais. Do pomar
olho minha inútil biblioteca. Doirados
frutos na estante..
Inutilíssima sapiência. Sabíamos tudo.
Merecíamos tudo. Tínhamos até fé.
Outrora eu passeava entre canteiros de enciclopédias
limpando pulgões podando ervas e páginas. Perdia-me
na contemplação da abelha sobre as letras:
- favos de mel derramavam-se da estante.
Todos nós líamos os poetas
mas não lavramos um mundo mais justo,
E enquanto soturnos decifrávamos as tabuinhas dos
caldeus os mais astutos e modernos
empolgavam o poder e o generais
marcando em nossas testas anátemas fatais.
E líamos grossos romancistas
exalando suor vermelho e revoltas sobre a praça.
Povo era a palavra
e o amanhã era a palavra
da palavra povo.
Mas porque estava tudo escrito
nosso futuro
petrificado
de nós se alienou.
Ontem soltávamos pombas nos estádios
éramos livres, juvenis e a paz um poster de Picasso.
Mas foram-se os posters e Picasso
- e as pombas não voltaram nunca mais.
Nossos pais também liam os poetas
citavam os clássicos
e pelas noites com seus robes tomavam chávenas
e liam dourados tomos sem ver as traças
- que nos comem.
Mas os acontecimentos desviaram-se dos livros
e por mais que entulhássemos os cursos de história
de novo a história
desviava-nos seus rios
e os livros
nem sempre férteis
aprodreciam no Nilo.
E sobrevieram borrascas e explodindo códigos e leis
que eram logo dissolvidos e refeitos em novas leis
e códigos. E erguíamos diques e parágrafos murando o mar
e a ressaca dos fatos
- a tudo rebentar.
A vida, a vida é mais que profecias e algemas
a vida é irrefreável
não se contém nas lâminas
partidos
nem nos fichários
e antenas
a vida
- é o impoemável poema.
QUE PAÍS É ESTE? (1980)
(fragmento)
para Raymundo Faoro
Puedo decir que nos han traicionado? No. Que
todos fueron buenos? Tampoco. Pero allí está
una buena voluntad, sin duda y sobretodo, el ser así.
CÉSAR VALLEJO
1
Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.
Uma coisa é um país,
outra um regimento.
Uma coisa é um país,
outra o confinamento.
Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno “Avante”
- e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um “berço esplêndido” para um “futuro radioso”
e éramos maior em tudo
- discursando rios e pretensão.
Uma coisa é um país,
outra um fingimento.
Uma coisa é um país,
outra um monumento.
Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.
Deveria derribar aflitos mapas sobre a praça
em busca da especiosa raiz? ou deveria
parar de ler jornais
e ler anais
como anal
animal
hiena patética
na merda nacional?
Ou deveria, enfim, jejuar na Torre do Tombo
comendo o que as traças descomem
procurando
o Quinto Império, o primeiro portulano, a viciosa visão do paraíso
que nos impeliu a errar aqui?
Subo, de joelhos, as escadas dos arquivos
nacionais, como qualquer santo barroco a rebuscar
no mofo dos papiros, no bolor
das pias batismais, no bodum das vestes reais
a ver o que se salvou com o tempo
e ao mesmo tempo
- nos trai.
ARTE FINAL
Não basta um grande amor
para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
que o amor da gente.
O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.
Uma coisa é a letra,
e outra o ato,
- quem toma uma por outra
confunde e mente.
GAIA CIÊNCIA
Gosto de me iludir
pensando
que hoje amo
melhor que ontem amei.
Assim desculpo o jovem afoito
que, em mim, me antecedeu
e, generoso, encho de esperanças
o velho sábio
que amará melhor que eu.
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Epitáfio para o século XX
1.
Aqui jaz um século
onde houve duas ou três guerras
mundiais e milhares
de outras pequenas
e igualmente bestiais.
2.
Aqui jaz um século
onde se acreditou
que estar à esquerda
ou à direita
eram questões centrais.
3.
Aqui jaz um século
que quase se esvaiu
na nuvem atômica.
Salvaram-no o acaso
e os pacifistas
com sua homeopática
atitude
-nux vômica.
4.
Aqui jaz o século
que um muro dividiu.
Um século de concreto
armado, canceroso,
drogado,empestado,
que enfim sobreviveu
às bactérias que pariu.
5.
Aqui jaz um século
que se abismou
com as estrelas
nas telas
e que o suicídio
de supernovas
contemplou.
Um século filmado
que o vento levou.
6.
Aqui jaz um século
semiótico e despótico,
que se pensou dialético
e foi patético e aidético.
Um século que decretou
a morte de Deus,
a morte da história,
a morte do homem,
em que se pisou na Lua
e se morreu de fome.
7.
Aqui jaz um século
que opondo classe a classe
quase se desclassificou.
Século cheio de anátemas
e antenas,sibérias e gestapos
e ideológicas safenas;
século tecnicolor
que tudo transplantou
e o branco, do negro,
a custo aproximou.
8.
Aqui jaz um século
que se deitou no divã.
Século narciso & esquizo,
que não pôde computar
seus neologismos.
Século vanguardista,
marxista, guerrilheiro,
terrorista, freudiano,
proustiano, joyciano,
borges-kafkiano.
Século de utopias e hippies
que caberiam num chip.
9.
Aqui jaz um século
que se chamou moderno
e olhando presunçoso
o passado e o futuro
julgou-se eterno;
século que de si
fez tanto alarde
e, no entanto,
-já vai tarde.
10.
Foi duro atravessá-lo.
Muitas vezes morri, outras
quis regressar ao 18
ou 16, pular ao 21,
sair daqui
para o lugar nenhum.
11.
Tende piedade de nós, ó vós
que em outros tempos nos julgais
da confortável galáxia
em que irônico estais.
Tende piedade de nós
-modernos medievais-
tende piedade como Villon
e Brecht por minha voz
de novo imploram. Piedade
dos que viveram neste século
— per seculae seculorum.
Usei o poema EPITÁFIO PARA O SÉCULO XX durante dois ou três semestres no Curso de Pós-graduação em Ciência da Informação, na Universidade de Brasília, na disciplina que então ministrava – Informação, Desenvolvimento e Sociedade. Os alunos liam e fazíamos uma verdadeira heurística do texto. Por que?
O poema de Affonso é o que eu chamo de legítimo “poema-ensaio”, com um conteúdo informacional preciso, no que Roberto Juarroz chamaria de “poiesofia”. Produto de um scholar que disserta magistralmente sobre o tema com eruditismo e domínio da técnica poética, em que as informações se conformam em versos rítmicos de “palavra-puxa-palavra” mas não por simples intenção onomatopaica, mas, sobretudo, significante, coisificante. Sucessor de Drummond, conhecedor do poema processo (que até deve ter combatido em seus excessos formalísticos), os versos compõem um mosaico que analisa e cristaliza uma visão crítica do/no ocaso do século passado. Magistral é a palavra que eu uso tanto para significar a magnificência dos versos quanto seu didatismo.Exige do leitor uma interpertação a partir das palavras-chave que invoca em seu discurso “exemplar”, de contexto, de posição histórica e crítica sobre os elementos citados, que devem necessariamente ser do conhecimento do leitor. Poema síntese de idéias e valores que “dan relevamiento” a um século que se foi, e que foi tarde...
Antonio Miranda
De
O HOMEM E SUA SOMBRA
Ilustrações Maria Angela Biscaia
Porto Alegre: Alegoria, 2006
9
Era um homem com uma sombra feminina.
Com ela se dava bem
— os outros é que estranhavam.
Olhado de perfil
parecia uno, duro, macho.
Mas nela cresciam seios
e era como se a sombra
à revelia do homem
— no escuro engravidasse.
10
— Que sombra estranha me deram!
(o homem conjeturava
pois sua sombra
não andava).
Estática
ficava ancorada
onde bem lhe apetecia.
O homem a chamava
ela não se mexia.
Desguarnecido de sua sombra
seu dono já não sabia
se a ia ou se ficava.
Não ia
a parte alguma.
Ao redor da própria sombra
circulava.
TEXTOS EN ESPAÑOL
Textos de Ricardo Ruiz
(Argentina)
EL GRAN HABLA DEL ÍNDIO GUARANÍ (1978)
(fragmento)
3
Y la pregunta martilla y se posa
como un cuervo
en la desesperación abierta de la ventana.
- ¿Quién escribiría el poema de mi tiempo?
- ¿Yo mismo? ¿Mas, con que manos, éxtasis, locuras?
¿con que vanidades, premios, vejámenes?
Habla alguien por alguien
- ¿con ajeno corazón?
Vive alguien por alguien
- ¿o muere siempre de este lado de mano propia?
¿No serían el habla
el amor
la vida
la metafórica versión del exilio
el brillo de una estrella apagada
ausencia y concreción de la nada?
Sí, es verdad que cada día se más de lo que se componen la poesía y la nada.
Desgrano poemas y maizales
como un campesino abona estancias y mujeres.
Pero me siento maduro e inútil. Como ayer:
- inmaduro y fútil.
No me levanto más a las cinco
no yerro mas al animal
me desesperan los vegetales. Del huerto
veo mi inútil biblioteca. Dorados
frutos en el estante.
Inutilísima sabiduría. Sabíamos todo.
Merecíamos todo. Teníamos hasta fe.
Otrora yo paseaba entre canteros de enciclopedias
limpiando pulgones podando hierbas y páginas. Me perdía
en la contemplación de la abeja sobre las letras:
- celdas de miel se derramaban del estante.
Todos nosotros leíamos a los poetas
mas no labramos un mundo mas justo.
Y en cuanto taciturnos descifrábamos las tablillas de los
caldeos los más astutos y modernos
entusiasmaban al poder y a los generales
marcando en nuestras cabezas anátemas fatales.
Y leíamos sólidos novelistas
exhalando sudor rojo y revueltas sobre la plaza.
Pueblo era la palabra
y el mañana era la palabra
de la palabra pueblo.
Mas porque estaba todo escrito
nuestro futuro
petrificado
de nosotros se apartó.
Ayer soltábamos palomas en los estadios
éramos libres, jóvenes y la paz un poster de Picasso.
Pero se fueron los posters y Picasso
- y las palomas no volvieron nunca mas.
Nuestros padres también leían a los poetas
citaban los clásicos
y por las noches con sus robes tomaban en sus tazas
y leían dorados tomos sin ver las polillas
- que nos comen.
Mas los acontecimientos se desviaron de los libros
y por mas que enterrásemos los cauces de la historia
de nuevo la historia
nos desviaba sus ríos
y los libros
no siempre fértiles
se pudrían en el Nilo.
Y sobrevinieron borrascas y explotando códigos y leyes
que eran luego disueltos y rehechos en nuevas leyes
y códigos. Y erguíamos diques y párrafos amurallando el mar
y la resaca de los hechos
- reventando todo.
La vida, la vida es más que profecías y grilletes
la vida es irrefrenable
no se encuentra en las láminas
partidos
ni en los ficheros
y antenas
la vida
- es el impoemable poema.
¿QUE PAÍS ES ESTE? (1980)
(fragmento)
para Raymundo Faoro
Puedo decir que nos han traicionado? No. Que
todos fueron buenos? Tampoco. Pero allí está
una buena voluntad, sin duda y sobretodo, el ser así.
CÉSAR VALLEJO
1
Una cosa es un país,
otra una aglomeración.
Una cosa es un país,
otra un regimiento.
Una cosa es un país
,
otra el confinamiento.
Mas ya supe fechas, guerras, estatuas
use cuaderno “Avante”
- y desfile en zapatillas para el dictador.
Venía de una “cuna esplendida” hacia un “futuro radiante”
y éramos lo más grande en todo
- discursando ríos y pretensión.
Una cosa es un país,
otra un fingimiento.
Una cosa es un país,
otra un monumento.
Una cosa es un país,
otra el envilecimiento.
¿Debería derribar penosos mapas sobre la plaza
en busca de la engañosa raíz? ¿o debería
parar de leer diarios
y leer anales
como anal
animal
hiena patética
en la mierda nacional?
¿O debería, en fin, ayunar en la Torre do Tombo
comiendo lo que las polillas descomen
procurando
el Quinto Imperio, el primer mapa náutico, la viciosa visión del paraíso
que nos impelió a errar aquí?
Subo, de rodillas, las escaleras de los archivos
nacionales, como cualquier santo barroco a rebuscar
en el moho de los papiros, en las manchas
de las pilas bautismales, en el mal olor de las vestimentas reales
a ver lo que se salvo con el tiempo
y al mismo tiempo
- nos traiciona.
ARTE FINAL
No basta un gran amor
para hacer poemas.
Y el amor de los artistas, no se engañen,
no es más bello
que el amor de la gente.
El gran amante es aquel que silencioso
se aplica a escribir con el cuerpo
lo que su cuerpo desea y siente.
Una cosa es la letra,
y otra el acto,
- quien toma una por otra
confunde y miente.
GAYA CIENCIA
Gusto de engañarme
pensando
que hoy amo
mejor de lo que ayer amé.
Así disculpo al joven audaz
que, en mí, me antecedió
y, generoso, lleno de esperanzas
el viejo sabio
que amará mejor que yo.
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Traducciones del poeta chileno Adán Méndez
Publicados originalmente em: www.letras.s5.com/
PEQUEÑOS ASESINATOS
Vegetariano
no dejo de llorar
sobre las legumbres descuartizadas
de mi plato.
Tomates sangran en mi boca,
lechugas se desmayan en la salsa de limón-mostaza-aceite,
cebollas sollozan sobre la pila
y oigo el grito de la patatas fritas.
Como,
como un salvaje, como.
Como tapándome el oído, cerrando los ojos,
distrayendo, en el paisaje, el paladar,
con la displicente voluptuosidad
de quien mata para vivir.
En la sobremesa
continúa la verde desesperación:
peras degolladas,
higos destripados
y yo chupando el cerebro
amarillos de los mangos.
Esto aquí afuera. Pues allá dentro
bajo la piel, una intestina disputa
me alimenta: oigo el lamento
de millones de bacterias
que los lanzallamas de los antibióticos
exasperan.
Por donde voy es luto y lucha.
LA INTRUSA
Ella quería entrar a la fuerza en mi poema.
Primero, metió la pierna
con el muslo expuesto.
(El poema resistiendo.)
Después las uñas pintadas.
Cuando abrió la boca para el beso
saqué todas las bilabiales del texto.
Restaron sus largos cabellos
cubriéndome una estrofa entera.
Pero esto lo verán tan sólo
quienes sepan leer palimpsestos.
CARTA A LOS MUERTOS
Amigos, nada cambió
en esencia.
Los salarios apenas cubren los gastos,
las guerras no terminaron
y hay virus nuevos y terribles
pese al avance de la medicina.
Cada cierto tiempo un vecino
cae muerto por un asunto de amor.
Hay películas interesantes, es verdad,
y como siempre, mujeres portentosas
nos seducen con sus bocas y sus piernas,
pero en materia de amor
no inventamos ninguna nueva posición.
Algunos cosmonautas permanecen en el espacio
seis meses o más, testeando el engranaje
y la soledad.
En cada olimpíada hay records previstos
y en los países, avances y retrocesos sociales.
Pero ningún pájaro modificó su canto
con la modernidad.
Remontamos las mismas tragedias griegas,
releemos Don Quijote, y la primavera
llega puntualmente cada año.
Algunos hábitos, ríos y bosques
se perdieron.
Ya nadie coloca sillas en la vereda
o toma el frescor de la tarde,
pero tenemos máquinas velocísimas
que nos dispensan de pensar.
Sobre el desaparecimiento de los dinosaurios
y la formación de las galaxias
no avanzamos nada.
Ropas van y vuelven según las modas.
Gobiernos fuertes caen, otros se levantan,
países se dividen
y las hormigas y las abejas continúan
fieles a su trabajo.
Nada cambió en esencia.
Cantamos felicidades en las fiestas,
discutimos fútbol en la esquina
morimos en estúpidos desastres
y cada cierto tiempo
uno de nosotros mira al cielo cuando estrellado
con el mismo pasmo del hombre de las cavernas.
Y cada generación, insolente,
sigue hallando
que vive en la cumbre de la historia.
VEJEZ ERÓTICA
Estoy viviendo la gloria de mi sexo
a dos pasos del crepúsculo
Dios no se escandaliza con esto.
El júbilo maduro de la carne
me enternece.
Envejezco, sí. Y
(ocultamente)resplandezco.
IN ILLO TEMPORE
Había un cierto orden en aquel tiempo.
Siendo verano, llovía a las cuatro de la tarde.
Los pájaros se posaban en las ramas
cantando cada cual su canción.
Es verdad que perros y gatos
continúan obedeciendo nuestras órdenes
a veces absurdas
y algunos se acuestan a nuestros pies
y besan nuestras manos.
Pero había un cierto orden en ese tiempo.
Un cuadrado era perfecto
y un triángulo de tres lados
podía llegar a la perfección.
NUEVO GÉNESIS
En el primer día
el Demonio crió el universo y todo lo que hay en él
y vio que era bueno
En el segundo día
creó la codicia, la usura, la envidia, la gula, la pereza, la soberbia, la iraque llamó siete virtudes capitales
y vio que era bueno
En el tercer día creo las guerras.
En el cuarto día creó las epidemias.
En el quinto día creo la opresión.
En el sexto día creó la mentira
y en el séptimo día, cuando iba a descansar,
hubo una rebelión en la jerarquía de los ángeles
y uno de ellos, de nombre Dios,
quiso revertir el orden general de las cosas,
pero fue exiliado
en la peor parte del Infierno – los Cielos.
Desde entonces
el Demonio y sus huestes continúan firmes
en la conducción de los negocios universales,
aunque cada cierto tiempo un serafín, un querubín
y algún hijo de Dios, provoquen protestas, milagros, revoluciones
queriendo forzar el Bien donde hay Mal.
Sin embargo no han sido muy exitosos hasta el momento,
excepto en casos particulares
que no alteraron en nada la marcha general de la historia.
MUERTE EN LA TERRAZA
Muere otra paloma en la terraza.
Viéndola encogida hace días, yo no sabía
que la paloma (en aquella paloma) moría.
Llamo a mi mujer
para que me ayude a vivir más esa muerte.
Ella la toma en la mano. (Los animales la aman.)
La acaricia y la deja descansar en la sombra.
De nuevo sola,
la paloma mira el mundo quieto y estático.
De repente pone las patitas hacia arriba
batiendo las alas en un espasmo. (Otra paloma,
sorprendida por la escena, viene picoteando semillas
junto al cuerpo que agoniza.)
Tomo un bolígrafo rojo y anoto, urgente,
la muerte de la paloma en el poema.
La paloma deja caer la cabecita.
El poema se inclina.
Una gota roja cae del pico (o pluma)
y el poema
-termina.
Textos gentilmente enviados de Chile por el poeta Leo Lobos.
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EPITAFIO PARA EL SIGLO XX
Aquí yace un siglo
donde hubo dos o três guerras
mundiales y millares
de otras pequeñas
e igualmente bestiales.
2. Aquí yace un siglo
en que se creyó
que ser de izquierda
o de derecha
eran cuestiones centrales.
3. Aquí yace un siglo
que casi se esfumo en la nube atômica.
Se salvo por suerte
y por los pacifistas
con su homeopática
actitud
— nux-vômica.
4. Aquí yace un siglo
que un muro dividió.
Um siglo de concreto
armado, canceroso,
drogado, apestado,
que al fin sobrevivió
a las bactérias que parió.
5. Aquí yace um siglo
que se abismo
con las estrellas
en las telas
y que el suicidio
de supernovas
contemplo.
Un siglo filmado
que el viento se llevó.
6. Aquí yace un siglo
semiótico y despótico,
que se creyó dialéctico
y fue sidoso y patético.
Un siglo que decreto
la muerte de Dios, la muerte de la historia,
la muerte del hombre, en que se piso la luna
y se murió de hambre.
7. Aquí yace un siglo
que oponiendo clase a clase
casi se desclasificó.
Siglo lleno de anátemas,
antenas, siberias y gestapos
e ideológicas safenas;
siglo technicolor
que todo transplanto
y elbBlanco con el negro
a la fuerza junto.
8. Aquí yace un siglo
que se echó en el diván.
Siglo narciso & esquizo
que no pudo computar
sus neologismos.
Siglo vanguardista,
marxista, guerrillero,
terrorista, freudiano,
proustiano, joyceano,
Borges-kafkiano.
Siglo de utopias y hippies
que en un chip entrarían.
9. Aquí yace un siglo
que se llamó moderno
y mirando soberbio
el pasado y el futuro
se creyó eterno;
siglo que de sí
hizo tal alarde
y, sin embargo,
—se va ya muy tarde.
10. Fue duro atravesarlo,
Muchas veces morí, otras
quise volver al XVIII,
o al XVI, saltar al XXI, salir de aqui
¿a qué lugar?
— NInguno.
11. Piedad de nos, oh vosotros,
que en otros tiempos nos juzgáis
desde la amena galáxia
en que irônicos estais.
Piedad de nos,
— modernos medievales —
piedad de nos, como Villon
y Brecht, que por mi voz
de nuevo imploran. Piedad
de los que en este siglo vivieron
—per omnioa saecula saeculoroum.
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Extraído de EL HOMBRE BOMBA ANTOLOGÍA AFFONSO ROMANO DE SANT´ANNA, publicación de Chile Poesía Editorial. Santiago de Chile: 2005. Em coedición con la Embajada de Brasil.
Ganhei o exemplar desta obra do Centro de Estudos Brasileiros. Comentando com o autor (Affonso), ele brincou referindo-se à situação de portar o livro no vôo Santiago-São Paulo e só então perceber que o título da obra — EL HOMBRE BOMBA – poderia causar algum desassossego aos tripulantes e passageiros... Certo que a poesia é explosiva e pretende mudar o mundo, pelo menos em seus alicerces ideológicos.
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Página ampliada e republicada em janeiro de 2008/ ampliada e reeditada em abril 2008 ; ampliada e reeditada em janeiro de 2010.
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